Não sei, não me lembro. Eu só tinha 07 anos. Mas o que é osteomelite? De 1945 a 1954 foram 13 operações. Operações em cima de operações cicatrizadas, minha perna foi ficando esburacada. Eu continuava brincando com os meus amigos e correndo, mesmo com uma perna dobrada e dura. As minhas correrias faziam sair mais sangue e apareciam na minha calça o que assutava meus amiguinhos. Foi mais ou menos nesta época que escutei pela primeira vez a palavra que me arrasou e modificou o meu jeito de ser. Um menino falou que não jogaria mais futebol comigo porque eu era um ALEIJADO. Até aquele dia eu nem sabia o que era um aleijado....(continua)"
Meu pai teve uma infância de provações. Passou humilhações, chegou a sair antes do cinema que tinha como personagem um deficiente físico, com medo que as outras crianças tirassem sarro. Perdeu amigos que tinham vergonha dele e até foi expulso do desfile escolar de 07 de setembro por uma professora, porque ele era "manco" e isso atrapalharia a "beleza" do desfile. Diz ele que ele "estava tão animado com o desfile, pensava na mãe e irmãos o vendo marchar..." Foi vendo os amigos sumirem marchando e o silêncio na rua. Ele sozinho, encostado no muro. Expulso do desfile. Ali perdeu o sorriso por um bom tempo em sua vida... E hoje, sua deficiência é charme - anda mancando bem de leve, quase não se percebe. Mas é difícil explicar como um homem que passou por tudo isso pode ser tão de bem com a vida, tão generoso, tão feliz, tão bem humorado, tão carinhoso, tão justo e humano. Fico pensando quantas vezes ele deve ter ficado com vontade - ao escutar nossas reclamações da vida - jogar na nossa cara o que era sofrimento de verdade. Mas não, nunca fez isso. Nunca usou disso pra dar exemplo.....Minha maior lição de vida é o meu pai. Te amo, paizão!
autoria: luizcarlosmorallescaldas - meu pai.
Em busca de palavras que possam romper os dias.Palavras de todos os jeitos.Meus amigos cheguem mais perto...Fiquem à vontade.Que as palavras nos encontrem!
22 de jun. de 2008
HISTÓRIAS DO MEU PAI nº1
"OSTEOMELITE - Tu tens osteomelite, guri.. Mas nós vamos te deixar novinho em folha." Isto eu escutei de um médico ( meses e meses depois de muita dor e febre) não me lembro qual de tantos que me trataram. Do veredicto da pequena dorzinha no meu joelho, pra depois o inchaço e febres intermináveis - foram 09 anos de operações e hospitais ao longo da minha infância (devido à falta de conhecimento de tratamentos e falta de recursos para ir até um hospital melhor...) A mãe queria saber onde eu tinha me machucado. Eu tinha e tenho até hoje duas hipóteses: 1)Um bate bola com os imãos mais velhos. Eu de goleiro, encostado no galinheiro feito de tábuas. 2) Eu gostava de passar do alto de uma pereira para um pé de caqui. Quando eu estava quase conseguindo, como fazia sempre, o galho da pereira quebrou e eu cai lá do alto....
Vai ser borboleta, vai!
Essa é para a amiga com nome de flor: é a melhor definição para você neste momento – uma semente explodindo em cor , perfume e colorido. Arrebentando a terra, crescendo, aparecendo e desafiando as intempéries ao seu redor. Tava ali escondidinha debaixo da terra, no escuro, no conforto cômodo de não ver a luz, nem as tempestades, nem o amargo e muito menos o doce da vida como ela é. Foi você que me falou ontem: “as vezes temos que deixar os ciclos se fecharem, mesmo contra a nossa vontade. As vezes a gente acha que é hora, mas ainda não é....”. Assim como a natureza.
Teu ciclo é o da primavera, amiga! Vai lá voar feito borboleta, Angélica!
Ps: Logo, logo eu te encontro também, feito borboleta.
Essa é para a amiga com nome de flor: é a melhor definição para você neste momento – uma semente explodindo em cor , perfume e colorido. Arrebentando a terra, crescendo, aparecendo e desafiando as intempéries ao seu redor. Tava ali escondidinha debaixo da terra, no escuro, no conforto cômodo de não ver a luz, nem as tempestades, nem o amargo e muito menos o doce da vida como ela é. Foi você que me falou ontem: “as vezes temos que deixar os ciclos se fecharem, mesmo contra a nossa vontade. As vezes a gente acha que é hora, mas ainda não é....”. Assim como a natureza.
Teu ciclo é o da primavera, amiga! Vai lá voar feito borboleta, Angélica!
beijo da sua amiga Ana Carolina
Ps: Logo, logo eu te encontro também, feito borboleta.
21 de jun. de 2008
Sítio do Pica-Pau Amarelo

Hoje o sítio está de luto,
o milharal está em silêncio.
Nosso Visconde foi embora
Não nos ensina sabedorias
Não repreende a Emília
Não nos decifra segredos.
Boa viagem, Visconde.
Hoje, sabemos que o pó de pirlimpimpim
existe e funciona.
Obrigado.
Homenagem ao ator André Valli, falecido hoje.
Ele é o eterno Visconde de Sabugosa para muitas geraçoes.
de Glauber Piva www.glauberpiva.blogspot.com
6 de jun. de 2008
Todo dia, lá vem ela...
Quem disse que ia ser fácil?
Se alguém, já nem lembro mais quem foi.
Difícil, tortuosa e as vezes incompreensível. Essa Vida.
Um vida dentro de cada dia assim é a minha.
Não me dou mais o direito de fazer planos.
Só de vez em quando: sonhar no meio da noite.
Madrugo todos os dias ou noites?!
Caminho, mas antes respiro.
Esperança que nessa lufada de ar
Surja uma nova inspiração
Pra recomeçar
Em algum canto, de outro jeito....
Essa Vida.
Mas lá vem ela...
Autoria: anacarolinacaldas
Quem disse que ia ser fácil?
Se alguém, já nem lembro mais quem foi.
Difícil, tortuosa e as vezes incompreensível. Essa Vida.
Um vida dentro de cada dia assim é a minha.
Não me dou mais o direito de fazer planos.
Só de vez em quando: sonhar no meio da noite.
Madrugo todos os dias ou noites?!
Caminho, mas antes respiro.
Esperança que nessa lufada de ar
Surja uma nova inspiração
Pra recomeçar
Em algum canto, de outro jeito....
Essa Vida.
Mas lá vem ela...
Autoria: anacarolinacaldas
ENTUSIASMO
A palavra entusiasmo vem do grego e significa ter um deus dentro de si. Segundo os gregos, só pessoas entusiasmadas eram capazes de vencer os desafios do cotidiano. Era preciso, portanto, entusiasmar-se. E só há uma maneira de ser entusiasmado. É agir entusiasticamente! Se formos esperar ter as condições ideais primeiro, para depois nos deixarmos possuir por Deus, jamais O deixaremos agir em nós, pois sempre teremos razões para adiarmos Seu agir. Não é o sucesso que traz o entusiasmo, é o entusiasmo que traz o sucesso. Entusiasmo é acreditar na nossa capacidade de fazer as coisas acontecerem, de darem certo, de transformar a natureza e as pessoas.
do blog da atriz Claudia Gimenez.
22 de mai. de 2008
dissintonia.... 
Uma estrela sempre a te espiar.
Seguia à noite todos os teus passos
Ela se enfurecia quando a noite adormecia
Com o sol ela se apagava
E tua imagem desaparecia

Uma estrela sempre a te espiar.
Seguia à noite todos os teus passos
Ela se enfurecia quando a noite adormecia
Com o sol ela se apagava
E tua imagem desaparecia
Outra noite e mais uma vez lá estava ela
A te olhar fumando na janela
Mas pobre estrela. Não conquistou
Esse teu olhar, que olhava
Apaixonado para ela
Clara e serena, a lua
A boiar no céu
Nem sabia ele que aquela
Que parecia reinar
Era triste pelo amor desencontrado
Noite e dia em dissintonia
Ele, o sol resplandescente
Nem um pouco se importava
Com a dor que lhe causava
Lua, sol, estrela e você
Em descompasso
Amores divididos
Pelo céu e a terra
Luz e a escuridão
Olhos que não se vêem
Corações a espera
Do encontro
Que nunca há de chegar
autoria:anacarolinacaldas
A te olhar fumando na janela
Mas pobre estrela. Não conquistou
Esse teu olhar, que olhava
Apaixonado para ela
Clara e serena, a lua
A boiar no céu
Nem sabia ele que aquela
Que parecia reinar
Era triste pelo amor desencontrado
Noite e dia em dissintonia
Ele, o sol resplandescente
Nem um pouco se importava
Com a dor que lhe causava
Lua, sol, estrela e você
Em descompasso
Amores divididos
Pelo céu e a terra
Luz e a escuridão
Olhos que não se vêem
Corações a espera
Do encontro
Que nunca há de chegar
autoria:anacarolinacaldas
Encontros e Desencontros
Cada encontro está carregado de perda.
Ou de perdas.
Às vezes duas pessoas que se amam (amigos, casados, solteiros, amantes, namorados) se encontram e são felizes.
Ao fim da felicidade, um deles chora. Ou fica triste. Ou baixa os olhos. Ou é invadido por uma inexplicável melancolia.
É a perda que está escondida no deslumbramento de cada encontro.
O encontro humano é tão raro que mesmo quando ocorre, vem carregado de todas as experiências de desencontros anteriores.
Quando você está perto de alguém e não consegue expressar tudo o que está claro e simples na sua cabeça, você está tendo um desencontro.
Aquela pessoa que lhe dá um extremo cansaço de explicar as coisas é alguém com quem você se desencontra.
Aquela a quem você admira tanto, que lhe impede de falar, também é um agente de desencontro, por mais encontros que você tenha com as causas da sua admiração por ele.
A pessoa que só pensa naquilo em que vai falar e não naquilo que você está dizendo para ela é alguém com quem você se desencontra.
Alguém que o ama ou o detesta, sem nunca ter sofrido a seu lado, é alguém desencontrado de você.
Cada desencontro é perda porque é a irrealização do que teria sido uma possibilidade de afeto.
É a experiência de desencontros que ensina o valor dos raros encontros que a vida permite.
A própria vida é uma espécie de ante-sala do grande encontro (com o todo? o nada?).
Por isso talvez ele nada mais seja do que uma provocação de desencontros preparatórios da penetração na essência DO SER.
Mas por isso ou por aquilo, cada encontro está carregado de perda.
E no ato de sentir-se feliz associa-se a idéia do passageiro que é tudo, do amanhã cheio de interrogações, da exceção que aquilo significa.
A partir daí, uma tristeza muito particular se instala.
A tristeza feliz.
Tristeza feliz é a que só surge depois dos encontros verdadeiros, tão raros.
Encontros verdadeiros são os que se realizam de ser para ser e não de inteligência para inteligência ou de interesse para interesse.
Os encontros verdadeiros prescindem de palavras, eles realizam em cada pessoa, a parte delas que se sublimou, ficou pura, melhor, louca, mas a parte que responde a carências e às certezas anteriores aos fatos.
É mais fácil, para quem tem um encontro verdadeiro, acabar triste pela certeza da fluidez da felicidade vivida do que sair cantando a alegria da felicidade vivida ou trocada.
Quem se alegra demais se distancia da felicidade.
Felicidade está mais próxima da paz que da alegria, do silêncio do que da festa.
Felicidade está perto da tristeza, porque a certeza da perda se instala a cada vez que estamos felizes.
É esta certeza - a da perda - que provoca aquela lágrima ou aquela angústia que se instala após os verdadeiros encontros.
Há sempre uma despedida em cada alegria.
Há sempre um "E depois?" após cada felicidade.
Há sempre uma saudade na hora de cada encontro.
Antecipada.
Disso só se salva quem se cura, ou seja, quem deixa de estar feliz para ser feliz, quem passa do estar para o ser.
Texto: Arthur da Távola
Cada encontro está carregado de perda.
Ou de perdas.
Às vezes duas pessoas que se amam (amigos, casados, solteiros, amantes, namorados) se encontram e são felizes.
Ao fim da felicidade, um deles chora. Ou fica triste. Ou baixa os olhos. Ou é invadido por uma inexplicável melancolia.
É a perda que está escondida no deslumbramento de cada encontro.
O encontro humano é tão raro que mesmo quando ocorre, vem carregado de todas as experiências de desencontros anteriores.
Quando você está perto de alguém e não consegue expressar tudo o que está claro e simples na sua cabeça, você está tendo um desencontro.
Aquela pessoa que lhe dá um extremo cansaço de explicar as coisas é alguém com quem você se desencontra.
Aquela a quem você admira tanto, que lhe impede de falar, também é um agente de desencontro, por mais encontros que você tenha com as causas da sua admiração por ele.
A pessoa que só pensa naquilo em que vai falar e não naquilo que você está dizendo para ela é alguém com quem você se desencontra.
Alguém que o ama ou o detesta, sem nunca ter sofrido a seu lado, é alguém desencontrado de você.
Cada desencontro é perda porque é a irrealização do que teria sido uma possibilidade de afeto.
É a experiência de desencontros que ensina o valor dos raros encontros que a vida permite.
A própria vida é uma espécie de ante-sala do grande encontro (com o todo? o nada?).
Por isso talvez ele nada mais seja do que uma provocação de desencontros preparatórios da penetração na essência DO SER.
Mas por isso ou por aquilo, cada encontro está carregado de perda.
E no ato de sentir-se feliz associa-se a idéia do passageiro que é tudo, do amanhã cheio de interrogações, da exceção que aquilo significa.
A partir daí, uma tristeza muito particular se instala.
A tristeza feliz.
Tristeza feliz é a que só surge depois dos encontros verdadeiros, tão raros.
Encontros verdadeiros são os que se realizam de ser para ser e não de inteligência para inteligência ou de interesse para interesse.
Os encontros verdadeiros prescindem de palavras, eles realizam em cada pessoa, a parte delas que se sublimou, ficou pura, melhor, louca, mas a parte que responde a carências e às certezas anteriores aos fatos.
É mais fácil, para quem tem um encontro verdadeiro, acabar triste pela certeza da fluidez da felicidade vivida do que sair cantando a alegria da felicidade vivida ou trocada.
Quem se alegra demais se distancia da felicidade.
Felicidade está mais próxima da paz que da alegria, do silêncio do que da festa.
Felicidade está perto da tristeza, porque a certeza da perda se instala a cada vez que estamos felizes.
É esta certeza - a da perda - que provoca aquela lágrima ou aquela angústia que se instala após os verdadeiros encontros.
Há sempre uma despedida em cada alegria.
Há sempre um "E depois?" após cada felicidade.
Há sempre uma saudade na hora de cada encontro.
Antecipada.
Disso só se salva quem se cura, ou seja, quem deixa de estar feliz para ser feliz, quem passa do estar para o ser.
Texto: Arthur da Távola
1 de mai. de 2008
BALANÇO
Não se incomode comigo não, amigo.
Ando quieta mas por dentro é um rebuliço só
Tantas vozes misturadas e mais a minha
Que anda me perguntando
Quais delas eu vou deixar
Em silêncio.
Quero a voz da serenidade e humildade
Do bom humor e a não vaidade
Do fazer mais e acontecer menos
Do andar devagar pra me apressar
Apenas pra você, amigo.
Silencio o que não me diz mais nada
As disputas, o poder, a confusão
A dissintonia.
Que me calam, me param
A alma, no lugar errado.
Aos poucos tudo se encaixa
Não volto atrás do que eu não fui
Pra frente, minha caminhada
é risonha, leve e sem mais
Nada a declarar
Eu não preciso dizer mais nada
Pra você e pra mais ninguém
Então venha, aproveita e caminha comigo
Eu prometo, a viagem
Será uma grande aventura.
Não importa...
As vozes serão nossa sombra
De mãos dadas nossa estrada
Vai fugir e encontrar o sol
Todos os dias
Da nossa vida.
Amo tudo que a vida
Me reserva.
Pra mim
e pra você.
autoria: anacarolinacaldas
Não se incomode comigo não, amigo.
Ando quieta mas por dentro é um rebuliço só
Tantas vozes misturadas e mais a minha
Que anda me perguntando
Quais delas eu vou deixar
Em silêncio.
Quero a voz da serenidade e humildade
Do bom humor e a não vaidade
Do fazer mais e acontecer menos
Do andar devagar pra me apressar
Apenas pra você, amigo.
Silencio o que não me diz mais nada
As disputas, o poder, a confusão
A dissintonia.
Que me calam, me param
A alma, no lugar errado.
Aos poucos tudo se encaixa
Não volto atrás do que eu não fui
Pra frente, minha caminhada
é risonha, leve e sem mais
Nada a declarar
Eu não preciso dizer mais nada
Pra você e pra mais ninguém
Então venha, aproveita e caminha comigo
Eu prometo, a viagem
Será uma grande aventura.
Não importa...
As vozes serão nossa sombra
De mãos dadas nossa estrada
Vai fugir e encontrar o sol
Todos os dias
Da nossa vida.
Amo tudo que a vida
Me reserva.
Pra mim
e pra você.
autoria: anacarolinacaldas
16 de abr. de 2008
Um assalto na Rua Rockfeller : entre a frieza e um pai iluminado
Não sei se foi ter visto a arma na minha frente ou foi a calma e frieza dos assaltantes, que me assustou mais. Só mais tarde é que fui me dar conta que sim, podia ter levado um tiro e perdido a vida. Assim como o rapaz, o Lúcio, que ali na minha frente tinha acabado de perder os 19 mil reais que havia sacado na Agência HSBC, do Cristo Rei. Eu era a única pessoa ali como testemunha e o ajudei na descrição para a polícia. Os assaltantes o seguiram da agência bancária até o local em que estacionou o carro. Foi a nossa conclusão.
Enquanto esperávamos a polícia, que chegou uns 20 minutos depois (tempo suficiente para os assaltantes sumirem do mapa), os pais do rapaz chegaram. O rapaz assaltado abraçou o pai e disse “Desculpa pai, era o teu dinheiro. Tudo o que você tinha.”
O pai, também com a maior calma do mundo, mas esta cheia de ternura e não da frieza que havíamos presenciado, apenas falou: “Tudo o que eu tenho está aqui bem na minha frente, meu filho. O dinheiro nós vamos conseguir tudo de novo.” Depois, "o que eu ia fazer com 19 mil se se você não estivesse vivo?". Ainda falou que o melhor era esquecer a polícia que demorava para chegar e me convidou para tomar um café junto com eles, pois afinal “tudo na vida serve como aprendizado e vocês estão vivos,”disse.
As viaturas da Polícia militar chegaram, nos ouviram, e foram tentar recuperar o dinheiro perdido. Não sei se vão conseguir. Só sei que o pai do Lúcio é um iluminado e mesmo acreditando que podemos mudar algo nesse mundo para acabar com a violência e a criminalidade, fico com as palavras que ele me disse quando se despediu de mim: “Se o nosso Senhor quiser, o dinheiro vai aparecer. Deus apenas quis vocês vivos. Isso já basta.”
Começo a acreditar que estamos assim, apenas salvos, por milagres como este.
Hoje pela manhã, eu tinha acabado de sair do ônibus pensando no dinheiro que tenho que ganhar e nas dívidas para pagar. Fui andando em direção ao meu trabalho pela Rua Rockfeller, quando avistei na mesma calçada que eu andava algo que parecia um começo de briga. Com medo, resolvi parar. Um rapaz com uma mala na mão tinha acabado de sair do carro. Uma moto estaciona ao lado e o homem que estava na garupa, de capacete, aborda o rapaz. Com a maior calma do mundo – inclusive foi o que mais me assustou – o homem da moto puxou a mala, de dentro dela pegou um envelope branco, olhou dentro e voltou para a moto. Andando ainda devagar pela rua, me viram e chegaram bem perto da calçada. O que estava atrás, abaixou o visor do capacete, mirou a arma pra mim e disse: “Corra, se não morre.”
Não sei se foi ter visto a arma na minha frente ou foi a calma e frieza dos assaltantes, que me assustou mais. Só mais tarde é que fui me dar conta que sim, podia ter levado um tiro e perdido a vida. Assim como o rapaz, o Lúcio, que ali na minha frente tinha acabado de perder os 19 mil reais que havia sacado na Agência HSBC, do Cristo Rei. Eu era a única pessoa ali como testemunha e o ajudei na descrição para a polícia. Os assaltantes o seguiram da agência bancária até o local em que estacionou o carro. Foi a nossa conclusão.
Enquanto esperávamos a polícia, que chegou uns 20 minutos depois (tempo suficiente para os assaltantes sumirem do mapa), os pais do rapaz chegaram. O rapaz assaltado abraçou o pai e disse “Desculpa pai, era o teu dinheiro. Tudo o que você tinha.”
O pai, também com a maior calma do mundo, mas esta cheia de ternura e não da frieza que havíamos presenciado, apenas falou: “Tudo o que eu tenho está aqui bem na minha frente, meu filho. O dinheiro nós vamos conseguir tudo de novo.” Depois, "o que eu ia fazer com 19 mil se se você não estivesse vivo?". Ainda falou que o melhor era esquecer a polícia que demorava para chegar e me convidou para tomar um café junto com eles, pois afinal “tudo na vida serve como aprendizado e vocês estão vivos,”disse.
Nessa hora eu já tinha esquecido minha revolta pela demora da polícia e me acabei de chorar. Lúcio também chorava no ombro do pai. Emocionada, pensei que estava viva para ir atrás do meu sustento. Graças a Deus.
As viaturas da Polícia militar chegaram, nos ouviram, e foram tentar recuperar o dinheiro perdido. Não sei se vão conseguir. Só sei que o pai do Lúcio é um iluminado e mesmo acreditando que podemos mudar algo nesse mundo para acabar com a violência e a criminalidade, fico com as palavras que ele me disse quando se despediu de mim: “Se o nosso Senhor quiser, o dinheiro vai aparecer. Deus apenas quis vocês vivos. Isso já basta.”
Começo a acreditar que estamos assim, apenas salvos, por milagres como este.
Ana Carolina Caldas, viva Graças a Deus
15 de abr. de 2008
Seção GLAUBER PIVA
POEIRA
Ao levantar-se, olhou para baixo e viu a barra da saia empoeirada. Lembrou-se da semana anterior quando namorou sobre o capô do carro com o primo mais novo em uma rua deserta do interior. Naquele dia, empoeirou seu passado e teve dor nas costas.
Desta vez, com a saia nas mãos, lembrou-se de esquecimentos e roupas sujas. E viu que o pó tomou conta de seus olhos e de seu caminho. Respirou fundo e pensou nos versos argentinos de Bersuit Vergabarat: Ya mis ojos son barro en la inundación/que crece, decrece, aparece y se va. Deu de ombros e seguiu.
PRIMAVERA
Biquinis negros e grandes decoravam os parques iluminados por um violento sol de primavera, contrastando dolorosamente com o branco leitoso de pernas mornas e olhares sedentos. As flores começavam a temporada e disputavam com toalhas e bundas um pedaço de grama. E o faziam com medo e dignidade. Uma delas, pequena e sem espinhos, só podia torcer contra o mundo.
Tudo ia bem e o sol começava a sentir preguiça. Presságio de tranqüilidade. Até que uma criança desavisada e com pés arrepiados, pisou-a com força para acarinhar sua vizinha e presenteá-la à mamãe com os ombros vermelhos.
Viva a primavera!
Veja mais em: www.glauberpiva.blogspot.com
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