8 de out. de 2008



PRIMAVERA



"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera."





Cecília Meirelles

7 de out. de 2008

OCASO

Trata-se de tarefa difícil apenas quando não acreditamos que há uma grande força que nos impulsiona para a desacomodação. Muitas vezes a luz do novo, dos desafios, da experiência e inclusive das dificuldades que fazem crescer, não são suficientes para desfazer nossa cegueira. Medo de perceber que há muita luz, que há força quando se renasce, quando se recomeça. Assim como um parto. Amor, dedicação, cuidado, paciência, sacrifício, doação, dor, lágrimas, esforço, fé e amor. Nasce o novo nunca antes imaginado, mas gestado. Gestar-se é mudar de hábito. Portanto, é mudar de pensamento, é mudar de caminhos, é mudar de postura. É ter coragem de acreditar no que deseja acreditar, mesmo que apenas restem poucos ao seu lado, mas já é o suficiente pra recomeçar. Que estes poucos sejam aqueles que olham no olho, que tem humildade nos atos diários e pureza no coração. São eles, só eles que eu desejo ao meu lado e já os tenho. Coragem para libertar a alma. Coragem ao saber que se anda sozinho, porém que há tanta coisa ainda não vivida....









Mas, agora é hora do ocaso. Assim como o sol se põe, é hora de se aquecer, se refazer... O pôr do sol é normalmente mais brilhante do que o nascer do sol, pois a matiz de vermelho e laranja são mais vibrantes.... Assim também como é ilusão de ótica o tamanho que damos a ele, assim perto da linha do horizonte...Fazemos o mesmo com os problemas, com os novos caminhos, com as decisões, com as mudanças....tamanhos e medos ilusórios. Depois do ocaso, há sempre o novo dia pra renascer, há sempre a alvorada, a esperança, a coragem, a nova energia , a novidade e a vida, vida nova que lhe espera todos os dias ....todos os dias.


autoria:anacarolinacaldas

5 de out. de 2008

A PROCURA

Andei pelos caminhos da Vida,
Caminhei pelas ruas do Destino
procurando meu signo.
Bati na porta da Fortuna,
mandou dizer que não estava.
Bati na porta da Fama,
falou que não podia atender.
Procurei a casa da Felicidade,
a vizinha da frente me informou
que ela tinha se mudado
sem deixar novo endereço.
Procurei a morada da Fortaleza.
Ela me fez entrar: deu-me veste nova,
fez-me beber de seu vinho.
Acertei o meu caminho.


Cora Coralina - Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas

19 de set. de 2008

Me deixa...

Quero pensar em tudo
Então mundo me deixa quieta no canto
Quero organizar os pensamentos dos últimos anos
Mas sem a culpa de estar cá com os meus botões
Me deixa
Quero ordenar a vida
Mas de um jeito meu e não do teu, nem do teu
E muito menos do teu....
Desse jeito que eu já achei
Que me acalma a alma
Tão calma como o colo ao fim de uma longa viagem.


Permissão pra ser livre, Dona Alma!

Culpas de todos os tipos me assombram apenas pelo simples motivo de eu desejar ficar quieta, ficar parada um pouco, ficar sem posição, ficar sem opinião, ficar sem dar satisfação! Não se tem permissão. Dá licença, eu me dou permissão a partir de agora e pra sempre. Permissão pra ser livre da imposição de fazer tanta coisa que fazemos porque a gente vive com as regras que não estão em sintonia com a nossa alma....Ela me pediu liberdade. Estou a concedendo. Eu morro pra ela viver. Morre o meu corpo marcado pelos dedos dos julgamentos, pelos olhares do “vigiar e punir” da sociedade em que todo mundo vigia o outro para que ninguém faça o que todo mundo adoraria fazer. O corpo cansado da guerra das vaidades. Cansado das disputas. Cansado da arrogância. Vou descansar enquanto minha alma vai me levar pra sair por aí e viver generosamente o que a vida além das traves dos meus olhos podiam alcançar. Vou renascer por ela e com ela. Vou fazer apenas o que ela mandar! A Dona Alma.
autoria: anacarolinacaldas

8 de set. de 2008

Examina teu Desejo



Mediunidade é instrumento vibrátil e cada criatura consciente pode sintonizá-lo com o objetivo que procura.

Médium, por essa razão, não será somente aquele que se desgasta no intercâmbio entre os vivos da Terra e os vivos da Espiritualidade.

Cada pessoa é instrumento vivo dessa ou daquela realização, segundo o tipo de luta a que se subordina.

“Acharás o que buscas” – ensina o Evangelho, e podemos acrescentar – “farás o que desejas”.

Assim sendo, se te relegas à maledicência, em breve te constituirás em veículo dos gênios infelizes que se dedicam à injúria e à crueldade.

Se te deténs na caça ao prazer dos sentidos, cedo te converterás no intérprete das inteligências magnetizadas pelos vícios de variada expressão.

Se te confias à pretensa superioridade, sob a embriaguez dos valores intelectuais mal aplicados, em pouco tempo te farás canal de insensatez e loucura.

Todavia, se te empenhas na boa vontade para com os semelhantes, imperceptivelmente terás o coração impelido pelos mensageiros do Eterno Bem ao serviço que possas desempenhar na construção da felicidade comum.

Observa o próprio e encontrarás a extensa multidão daqueles que te acompanham com propósitos escuros na retaguarda.

Eleva-te no aperfeiçoamento próprio e caminharás de espírito bafejado pelo concurso daqueles pioneiros da evolução que te precederam na jornada de luz, guiando-te as aspirações para as vitórias da alma.

Examina os teus desejos e vigia os próprios pensamentos, porque onde situares o coração aí a vida te aguardará com as asas do bem ou com as algemas do mal.



Autor: Emmanuel
Psicografia de Chico Xavier

24 de ago. de 2008

Eu não sei...
"No calor da casa logo após abrir a porta, tira os sapatos e sorri como sempre.. Sente-se protegida sempre ao chegar em casa, pelo menos nos primeiros minutos Passada a euforia da sensação única de terminar o dia e chegar em casa, quase sempre se lembra que fora ou dentro é seu corpo e alma que a protegem. E então se depara com um monstro maior que existe dentro de si. Da sensação de aconchego vai às lágrimas quase todas as noites. Sentimento de desamparo a corrói por dentro. Liga a televisão, lê um livro e se entrega para esquecer.... Sorri ao olhar para janela como se tentasse se convencer que há algo maior que um dia lhe será explicado. Fugas dentro de casa, fugas de si. O sono é mais poderoso que a vontade de fugir. Sua cama, sua casa, seu corpo; mais aconchego, mais solidão. Olhos abertos, as mesmas perguntas que acabou de fazer olhando as estrelas, faz novamente olhando dentro, dentro da alma. O que será que é pra fazer aqui nessa vida?"
autoria:anacarolinacaldas

13 de ago. de 2008

saudade do futuro


Saudade chega assim numa tarde de domingo
Estirada num colchão na varanda
Vendo símbolos nas nuvens que cortam esse céu azulado
Chega no cheiro de uma rosa
E uma lembrança gostosa
E quase consigo ouvir os sons das suas vozes
E ao fechar os olhos estou em um outro lugar
Com a calmaria tão parecida com essa
E a saudade já não é do passado
É do futuro que nunca existirá
A não ser nessa imagem criada
Artificialmente por uma mente saudosa
E ouço uma gargalhada de criança
E vejo um moleque fazendo arte ao lado do seu pai
E uma menininha tentando pegar o próprio pé ao lado da sua mãe
E uma avó feliz ao lado dos seus
E um avô compenetrado em aproveitar mais um instante
E sobram duas filhas contando causos
E um genro perdido na loucura
Que um dia chamamos de família
E não somos apenas seis
Sentados numa varanda
E as meninas já são mulheres e mães
E o menino já é pai
E os pais viraram avós
E cada um está num canto
Na sua própria varanda
Ou em nem isso
Vivendo de saudade
Da saudade de um futuro inatingível


autoria:angelicamaria www.nadamaisdomesmo.blogspot.com

9 de ago. de 2008


Os Filhos: Um presente de Deus

Quando a Andréa nasceu, eu chorei. Chorei de alegria ao ver aquela polaquinha com alguns fios de cabelo loiro e cara bolachuda e vermelha. Chorei, porque ela nasceu perfeita, como perfeita é até hoje. Foram 8 meses de tensão, isto porque a Lourdinha tinha se submetido a uma radiografia, quando estava grávida de um mês, mas não sabia. Ouvimos alguns "palpites furados", mas tudo acabou maravilhosamente bem. Até me esqueci que nós tinhamos certeza que seria menino, e veio uma menina linda. Naquele tempo, só se descobria o sexo depois do nascimento. Aliás, foi nessa hora que eu descubri que para os pais, filhos não tem sexo. São apenas filhos. Depois veio o Alexandre, crespinho, forte, bonito, de pernas grossas e curtas. Depois Ana, com seus olhinhos cor do céu e um semblante tranquilo trazendo paz. E por último, Andressa, morena, cabelos pretos, sombrancelhas grossas, uma mistura de cigana com índia brasileira. Quatro presentes do criador pra mim e pra Lourdinha. Como foi e está sendo bom ter voces como filhos. Todos se destacam nas suas respectivas funções. Todos com seus diplomas universitários, sem nunca termos exigido que vocês estudassem. Como foi bom ver e participar da caminhada de vocês. Do berço até a Universidade. Como é bom observar a retidão de caráter de vocês quatro. Continuem assim. Viver uma vida toda sem ter que baixar a cabeça pra ninguém. Viver uma vida toda sem levar desaforo pra casa. Viver uma vida toda sem ter que se humilhar, isto nem todo o ouro do Mundo paga.

Filhos. Eu adoro vocês.

Mensagem do Pai.
autoria: meu pai - Dia dos Pais/2008

3 de ago. de 2008

O que será


Dilúvio, tempestade, maremoto
Movimento só dentro
Anuncia mudança
Com medo e esperança
Eu espero

Só eu sei
Que isso vem
Só não sei
Se é pro bem

Ninguém mais
Sabe
Só eu sei
Sozinha me preparo
Pra isso que eu nem sei
O que é
Só sei
Que vem...



autoria:anacarolinacaldas

28 de jul. de 2008

Metade é e metade não é

Hoje olhei para ele
e me vi um pouco nele
Fomos cúmplices
de nós mesmos por tanto tempo
Lembro dos olhos teus
quando deixei
a nossa cumplicidade silenciosa
Sem ao menos ter combinado
essa saída repentina
Hoje olhei para ele
e vi nos olhos dele
o que vejo em mim
Nossa metade que é feliz
e aquela outra metade
que ainda espera ser feliz



autoria:anacarolinacaldas