31 de out. de 2006

Antes que o dia amanheça


“Com o corpo coberto de cicatrizes,
portando estrelas no peito,
nos olhos a invencível vocação de mar,
nós, os primitivos
voltamos
e somos milhões.”


Pedro Tierra


Antes que amanheça, saibamos do dia que encerramos.

Nascido das trevas, o dia findo carregou a marca da ansiedade e ofereceu-nos caminhos confusos, ora escuros, ora alegres; ora penhascos, ora planícies, ora planalto.

Construído com a massa da qual são feitas as utopias, este dia trouxe em seu ventre o sangue dos que lutaram contra as ditaduras, o suor dos que resignificaram o trabalho e os sonhos dos que reinventaram o Brasil. Neste dia que tanto demorou para nascer e agora já está terminado, o povo saiu da platéia e invadiu o palco.

A pobreza diminuiu, a fome diminuiu, o desemprego diminuiu. Neste dia, o Brasil e a América Latina se reencontraram e o mundo descobriu novos atores. Neste dia, negros e pobres, mulheres e homens, jovens e velhos acenderam o seu candeeiro e não deixaram a noite obscurecer o país.

Antes que o dia amanheça, lembremos da noite que vivemos.

Não podemos inaugurar o amanhã se não tratarmos as dores da noite. Vivemos tempos de ardor e descobertas e chegou a hora de reconhecê-las.
Aos que pensaram que diálogos encerram lutas e aniquilam diferenças, esta noite sepultou as ilusões: se somos plurais e diversos, somos também diferentes, somos um povo nascido das opressões, forjado nos mais duros embates e esta noite nos banhou com a mais antiga de todas as lutas.

Antes do amanhecer, identifiquemos nossos erros e purguemos nossas culpas, mas também olhemos nos olhos de nossos algozes e não nos esqueçamos de seus falsos moralismos, de suas condenações vazias desenhadas em manchetes e de seu autoritarismo que tentou nos impor o silêncio e a submissão.

Nesta longa noite, nossas dores doeram mais forte, mas também nos fortaleceram para o longo dia que chegou.

Antes que o dia amanheça, olhemos o horizonte, pois ele guarda o sol que iluminará as nossas lutas.

Aos que esperam por descanso, o novo dia não oferecerá cama macia, mas caminhos pedregosos. Aos que carregam armas, o novo dia não permitirá intolerância, mas exigirá inteligência. Aos que aspiram por consenso, a manhã nos propõe argumento e nos lembra que é tempo de sedução e dissenso.
Neste dia, com as frestas reveladas pelo sol, caberá às forças populares organizarem o seu projeto e articularem suas energias. Nossa comunicação tem de ser mais eficiente e nossas vozes mais audíveis. Na manhã que se anuncia, a esquerda deve se saber esquerda, os democratas se fazer republicanos e o povo não sair do palco.

O dia será longo, as lutas serão duras e outra noite poderá vir. Evitá-la é tarefa de milhões. Que tenhamos aprendido com a crueza da noite!


Glauber Piva é Secretário Nacional de Cultura do PT

Ps: (agora Glauber...vc podia continuar escrevendo por aqui...)

4 de out. de 2006

Poesia de Ivan Ivanovick

Mas, se fosse longe.
Mais, bem mais longe.
Sempre há um jeito de ser pior

É, mas desse jeito,
a gente se acostuma primeiro depois pensa.
Assim evita um pouco o desespero

Além do mais,
todo lugar tem estrelas
(parece até que são as mesmas)


A gente se encontra.



A poesia continua, Ivan!

1 de out. de 2006

Vou pedir licença para os tempos das poesias e expressar meu sentimento de indignação com a imprensa brasileira que nos trata como se todos fossemos medíocres e ignorantes, como se não mercessemos ao mínimo cobertura "um pouquinho imparcial"...Chega deste 4° poder!!!!!!!


Leiam texto do Prof° Toni :

A mídia venceu: vou votar no Lula!

Depois de abrir o UOL, antevendo a manchete da Folha de S.Paulo para amanhã, resolvi: vou votar!Não suporto a idéia de ser obrigado a fazê-lo, essa lei é anacrônica e estúpida, mas pior é ver a eleição sendo decidida pelo golpismo da imprensa!Não consigo deixar de pensar em 1989, quando a Globo fazia o serviço sujo, secundada por órgãos da imprensa escrita.Claro que este Lula e este PT não se parecem nadinha com o de 1989. Já a mídia...Penso que meu voto não refrescará em nada, mas não contribuirei com esses tontos e menos ainda com a hipótese de ver o Brasil governando pela OPUS DEI.Entristecido, emputecido, torcendo o nariz, vou à seção eleitoral amanhã para cravar o 13, espero que pela última vez


http://proftoni.blogspot.com/

28 de set. de 2006


" Se você treme de indignação perante uma injustiça no mundo, então somos companheiros."
Che Guevara

14 de set. de 2006

A tal loucura


Pode a razão arriscar-se na loucura por vontade própria?
De que vale a razão do homem senão para o outro?
No silêncio
a individualidade cala as loucuras mais prazerosas
que faz do homem SER.
A realidade dos outros são os outros. A minha,
é a verdade encontrada no estranho.
Já percebi que o louco não teme.
Vou, então, nela, na loucura,
encontrar meu absurdo.
Destarte, faço amor
com meus insanos puros.
Porque o louco
pode tudo perder,
menos a razão.

Élisson

7 de set. de 2006



"Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir - esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade."
(Clarice Lispector)

2 de set. de 2006

Emergência

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.


Mario Quintana - Emergência, em Apontamentos de história sobrenatural

1 de set. de 2006

Me llaman el desaparecido
Que cuando llega ya se ha ido
Volando vengo, volando voy
Deprisa deprisa a rumbo perdido
(Presente de Ivan Ivanovick (Manu Chao))
Mas, que nada!
Um samba como esse tão legal...
Você não vai querer que eu chegue no final!
(Presente de Ivan Ivanovick ( Jorge Ben))

28 de ago. de 2006


SEPARAÇÃO


Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo possível entre eles.

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-iá haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de secionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido; sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu intimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.

Fechou os olhos, tentando adiantar-se á agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, quer o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoava com seus beijos e agasalhara no instante de amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias por ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.
De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...

“Vinícius de Moraes”

24 de ago. de 2006

"tu me disseste: eu te amo.
eu te disse: espera.
eu ia dizer: leva-me contigo.
tu me disseste: vai embora"
(do filme jules e jim/ diretor: françois truffaut)
indicação do filme: Tiago Valdivieso