26 de mai. de 2007


OCUPAÇÃO DA USP E OS CAMINHOS E DESCAMINHOS DO MOVIMENTO ESTUDANTIL


* Ana Carolina Caldas




Dois artigos sobre a “Ocupação da USP” me chamaram atenção nesta semana. Um escrito por uma estudante da mesma Universidade e outro por uma jornalista da Folha de São Paulo.


O artigo Os prós e os contras da ocupação na USP, assinado por Carla Santos - estudante de letras da USP, ex Presidente da UBES (2001) e membro da equipe do Vermelho (site oficial do PCdoB), é uma análise de quem já viveu “atos de rebeldia”, que conhece como é que se organiza um movimento de protesto. Por "vício" e/ou hábito de quem faz/fez parte do movimento a autora dá nome aos bois, ou melhor, diz quem é quem, ou melhor ainda, define com ressalvas quem está lá ainda resistindo (ou que resistiram) na ocupação da USP. Identifica como uma boa militante partidária quais as forças também partidárias ali comandando o movimento. Informa em seu artigo que a maioria dos estudantes ligados ao DCE (Diretório Central dos Estudantes) e aos partidos, após a aceitação pela Reitora da USP de alguns pontos da pauta de reivindicações, resolveram se retirar do movimento de ocupação.


Segundo Carla Santos, para os que ficaram “se iniciava a grande chance de começar o caminho rumo à revolução socialista no Brasil, ou pelo menos quase isso, colocando a sua vida à disposição da tropa de choque para mais tarde, quem sabe, ser um neo-Alexandre Vanucci Leme (estudante da USP assassinado na ditadura de 64).”


A impressão que tive é que neste artigo há um alerta para uma possível descaracterização do movimento estudantil consolidado pelas forças partidárias.


Já o artigo escrito pela jornalista Laura Capriglione - 25 anos depois, estudante leva a mãe para a invasão, publicado na Folha São Paulo, o tom é outro - evidencia e quase que inaugura (?) uma nova fase do Movimento Estudantil, quando afirma que a ocupação é "promovida" por estudantes que nada tem a ver com as entidades estudantis. Além disso, sinaliza que ali é “ninguém manda, todo mundo manda”, ou seja, não existe cacique, liderança. Pelo que parece e o que a explicação do "artigo militante" tenta elucidar, é isso mesmo que está acontecendo. A estudante caracteriza a atitude dos colegas também estudantes de irracional ("Se por um lado a ocupação da reitoria da USP deixou de ter um sentido racional..."), pois começou apenas como uma visita para a Reitora com o objetivo de entregar uma carta de reivindicações e agora ainda não estão claro quais são as futuras estratégias.


Carla Santos que faz o alerta sobre a irracionalidade do movimento e a falta de liderança na ocupação, mas também identifica que algo importante está acontecendo mesmo que tenha começado sem querer e sem estratégias demarcadas, foi líder secundarista e ficou famosa é claro por sua competência política e por um ato de rebeldia noticiado nacionalmente em 2001. Ficou nua em frente ao Palácio do Planalto como forma de protesto. Só com uma faixa cobrindo os seios, a "bunda-pintada" entrou no espelho d'água do Congresso, organizou os estudantes para formar a palavra CPI no gramado e discursou. Tratava-se do protesto a favor da CPI da Corrupção e contra a lei que acabou com o passe livre nos ônibus municipais.

QUE A LOUCURA SE RESTABELEÇA...


Inspirada nos protestos da vida das caras ou bundas pintadas, nesta ocupação da USP e em outros atos de rebeldia sem violência, mas para promover mudanças... é que defendo e continuarei sempre defendendo - que a irracionalidade, a paixão, o ímpeto continuem PELO AMOR DE DEUS a fazer parte do MOVIMENTO ESTUDANTIL. Que os militantes do Movimento Estudantil deixem a racionalidade para quando virarem burocratas talvez (e espero que não virem...).


Mas não o sejam agora, não queiram antecipar algo que não deveria fazer parte deste momento em que se é jovem, em que se experiencia situações para bater a cabeça errando ou acertando... Não deixem que os profissionais já consolidados desta área do Movimento Estudantil ou a crença que movimento estudantil deve funcionar como uma empresa, como um partido ou qualquer outra coisa que se assemelha a "fina flor da burrocracia" contaminem suas rebeldias, paixões e até a sua imaturidade.


Se estão lá sem saber que estariam, se não planejaram, se não sabem ainda para onde vão... continuem apenas caminhando. Apenas caminhem sabendo que querem mudar algo, que são contra os decretos do Serra e que a racionalidade está no dia a dia da ocupação, como já foi noticiado - em deixar tudo limpo, em se organizar para definir o próximo dia e continuem caminhando... e por que não.. sem pensar quem são, se do partido A ou B. Afinal são estudantes impetuosos, apaixonados, rebeldes das suas causas.


A ex líder secundarista e ex presidente da UBES informa em seu artigo que “professores, diante da irredutível permanência de algumas correntes políticas do movimento estudantil na ocupação, passaram a buscar mais diálogo com os estudantes, as assembléias passaram a ser cada vez maiores e nesta quarta (23) também aderiram à greve em apoio à ocupação.” Não sabiam onde iriam parar, mas com sua irredutibilidade engrossaram o movimento contra os decretos do Serra e a favor da qualidade de ensino. São nos momentos de loucura, do irracional que o “caldo pode engrossar” ou pode não também. Vai saber...


Sou a favor que a essência do Movimento estudantil se restabeleça. Nesta fase somos aprendizes e precisamos errar muito para ter certeza que valeu a pena. Que venham outros atos de loucura, este tipo de loucura pacífica, brincalhona, irreverente que é assim sem saber direito o que vai acontecer... que só aconteceu porque não se pensou com as amarras de quem já não sonha mais, não se raciocinou sobre os dogmas do partido A ou B, sobre isso ou aquilo. Foram pacíficos e a partir do momento que ocuparam a reitoria começaram a se organizar... assim meio com medo, meio sem saber ainda como é que se organiza.


Sê jovem agora, para continuar sendo até a eternidade

“Enfim, os questionamentos eram muitos, mas a empolgação em estar fazendo algo para mudar a situação da universidade era muito maior”, informou Carla Santos sobre o clima inicial da ocupação. Sim! Eu sou a favor da leveza, da adrenalina, da sensação revolucionária que toma conta da gente quando se é estudante e provoca mudança de estado, de espírito, de consciência e aí a coisa começa, ou seja, a gente começa a se dar conta que tem força, que tem poder. Aí sim a gente se organiza, se desorganiza e sai da Universidade. Vira adulto com espírito jovem e de vez em quando relembra disso tudo e vai lá como o Arthur Poerner se unir aos estudantes na ocupação do terreno da Une (essa é uma loucura que vem dando certo!), se inspira e desenha um projeto para o Teatro da Une como o Oscar Niemeyer, vai lá e vira Ministro dos Esportes como o Orlando Silva, vira o Franklin Martins, etc, etc. Mas antes a gente tem que ser viver e agir como estudante!


Marcelo, aluno da escola de ciências sociais da USP, citado no artigo da jornalista Laura Capriglione, disse: "A gente não sabe muito o que é ser rebelde. Só sabe que é contra o decreto do Serra. O resto estamos aprendendo". Não são os estudantes de agora que não sabem o que é ser rebelde, rebeldia se experimenta em qualquer época quando lhe é permitido dentro dessa coletividade, do movimento ou dos movimentos estudantis.


Deixem para crescer quando saírem da Universidade... Agora apenas caminhem e vão aprendendo ....Depois a gente escolhe qual é a melhor da estratégia pro futuro.


Parafraseando a música “Epitáfio”... “eu deveria ter arriscado mais, complicado menos...” Quando olho para trás e lembro que um dia, em 1996, dormi dento da Universidade também para lutar a favor da autonomia da Universidade... fico feliz por ter tido o privilégio da participação no Movimento Estudantil . Participação esta que hoje me dá serenidade e a certeza que estou na torcida certa. Torço para que os estudantes de hoje arrisquem mais....compliquem menos!


E Viva os Estudantes!


Para terminar, ou melhor, ao terminar o que aqui escrevo informo que acabei de ler a seguinte notícia publicada há poucos minutos na internet: “Um grupo de estudantes da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) ocupou nesta quinta-feira (24), pela manhã, o gabinete da reitora, Ana Dayse Dórea, no campus de Maceió. Os estudantes são contra a reforma universitária; querem que a escola técnica agrotécnica seja voltada para os interesses da agricultura familiar (e não a monocultura da cana-de-açúcar); pedem a ampliação do restaurante universitário e da residência universitária, além de uma creche gratuita nas dependências da universidade; e são contra os cursos pagos e a cobrança de quaisquer taxas acadêmicas” (Site Uol, 23/05/2007).

Ana Carolina Caldas - ex Coordenadora do DCE UFPR (96-97) - formada em Pedagogia (UFPR), Mestra em História da Educação (UFPR) e atualmente estudante de Jornalismo (PUC/PR). Atuou também na Coordenação do Setorial de Cultura do PT de Curitiba. É autora da dissertação de mestrado “CPC da UNE no Paraná (1959-1964): encontros e desencontros entre a arte, educação e política”.
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Resposta de Carla Santos à Ana:

Cara Ana

Levantas duas polêmicas que considero muito saudáveis para o nosso tempo. A primeira diz respeito a racionalidade versus irracionalidade nos movimentos. A segunda, sutilmente apresentada no seu artigo e explicitamente apresentada do artigo da jornalista da Folha de S.Paulo, diz respeito sobre se ter ideologia, ou participar de partidos e organizações históricas, é ainda importante.

Sobre a primeira polêmica, como você deve ter notado no meu artigo, tenho posição. Não sou positivista, mas também não sou da turma do ''carpe diem''. Apenas acredito que a irracionalidade está contida em inúmeros valores cultivados em nosso tempo que gostaria de alterar, como o consumismo, o individualismo, a competitividade, entre outros. Penso que a grande loucura do movimento estudantil não depende apenas de vontade individual. Acredito que a grande loucura que ainda não vivemos são os grandes movimentos, aqueles que reúnem milhões, como ''As diretas já!'' ou o ''Fora Collor''. Essa loucura só será possível, no meu entendimento, com a compreensão da idéia de coletivo, de algo que é importante para mim (ou talvez nem tão importante assim), mas que faz muita diferença para o outro. Quando adotamos a idéia de loucura individual anulamos esta compreensão, a minha loucura passa a ter mais validade do que a do outro. E é neste sentido que caracterizei alguns personagens da ocupação.

Sobre a segunda polêmica é importante notar que todos somos estudantes na USP, independente de cor, partido, opção ideológica ou sexualidade e todos vivemos as mesmas condições da universidade: falta de moradias, verbas, etc. Em um momento onde o mundo converge para o fim dos preconceitos no reconhecimento das diferenças vejo com estranheza as opiniões, tão agraciadas pela jornalista da Folha, de dividir os estudantes entre os partidários e não partidários. A questão não é esta, a questão é sobre legitimidade. Gostemos ou não, são os partidos que em geral se organizam para as eleições aos DCEs e CAs nas universidades e legitimamente são eleitos pelo voto direto a função, entre outras, de representação. As responsabilidades que pesam sobre uma organização coletiva são diferentes daquelas que pesam sobre um indivíduo. Entendo que, apesar de permanecer no apoio à ocupação, as entidades se retiraram da mesma por perceber a falta de compromisso com o coletivo da universidade em detrimento do compromisso apenas consigo mesmo. Veja, quem vai sair ganhando se a PM militar entrar na reitoria meltralhando todo mundo? Apenas os mártires, porque o conjunto da comunidade, além de não ter obtido nenhuma vitória com a ocupação, permanecerá refém dos decretos do Serra.

Sim, é verdade, a insistência na ocupação gerou bons frutos para a mobilização da comunidade, mas a falta de perspectiva a que ela chegou pode levar a mesma mobilização que ela fez surgir desabar tão rápido quanto começou. Se engana quem acredita que a entrada da polícia no campus não pode acontecer. Se engana quem acredita que a entrada da polícia no campus pode intensificar a luta contra os decretos. A possibilidade de haver uma contundente repressão que faça regredir rapidamente tudo que até agora se mobilizou é muito grande. Quando se anda sem saber aonde se vai não se chega a lugar algum.

Espero que a ocupação descubra, e já passou da hora desta descoberta, aonde ela quer chegar porque para derrubar os decretos não bastará apenas uma ocupação (com ou sem a polícia). Será necessário, mais do que nunca, mobilizar muita gente, por de fato o bloco na rua, pois em São Paulo a luta não é para pequenos, a luta é difícil e muito dura. Agora mesmo no dia 23, estavam nas ruas cerca de mil estudantes da USP. Num universo de 70 mil estudantes e cinco mil professores há de se perceber que a mobilização ainda é muito pequena.

Estas são apenas algumas observações. Acho que o debate vai longe, não é simples, mas é muito importante que pessoas como você, eu e a Laura da Folha busquemos fazê-lo.

Todo apoio à ocupação para que ela continue contribuindo pela derrubada dos decretos, mas também, todo apoio àqueles jovens organizados em partidos que acreditam em grandes idéias e movimentos para transformar o mundo.

Carla Santos
Da redação


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Artigos citados :






Artigo publicado nos sites:






8 de mai. de 2007


Regra Três

Tantas você fez que ela cansou
Porque você, rapaz
Abusou da regra três
Onde menos vale mais

Da primeira vez ela chorou
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança

Porque o perdão também cansa de perdoar
Tem sempre o dia em que a casa cai
Pois vai curtir seu deserto, vai.


Mas deixe a lâmpada acesa
Se algum dia a tristeza quiser entrar
E uma bebida por perto
Porque você pode estar certo que vai chorar



Vinicius de Moraes
Composição: Vinicius de Moraes / Toquinho

19 de abr. de 2007

Diário da Felicidade

Coisinhas simples e coisinhas complicadas fazem de toda gente um pouco mais gente feliz. Assim como cantou Vinicius... "A felicidade é uma coisa boa e tão delicada também tem flores e amores de todas as cores tem ninhos de passarinhos tudo de bom ela tem e é por ela ser assim tão delicada que eu trato dela sempre muito bem”...

Cada qual com a sua ela está onde a gente quer que ela esteja: na gargalhada bem dada, no abraço apertado, no choro bem chorado até cansar, no sol e na chuva bem forte, nas conversas intermináveis com ou sem sentido, a companhia dos amigos sejam eles os mais sérios, mais engraçados, mais responsáveis, mais largados – o que importa é que eles estejam ali aquecendo a tua felicidade...

Ela está então nas coisas complicadas...nos amores vividos, sofridos, esquecidos e renascidos, no fazer as pazes para dar a mão a quem lhe é tão querido, no sorriso conquistado e perseguido depois da mágoa superada, no alívio da liberdade de algo incompreendido e que talvez nunca será compreendido e na sensação de que tudo o que se podia fazer foi feito ...

E quem nunca a encontrou nas coisas mais simples da vida...dormir muito depois de noites mal dormidas, abrir a janela pro vento bater no rosto, contemplar as estrelas, saborear a comida mais gostosa da nossa mãe, avó, tia, assistir o filme preferido, escutar mil vezes a mesma música também preferida, não fazer nada, não pensar em nada, acabar um livro bem gostoso de ler, achar dinheiro no bolso da calça, um chazinho quente nas noites frias, pés descalços na grama nos dias quentes, sorrir ao acordar porque mais um dia começou....

Mas eis que existem as coisas importantes que se misturam com o sentido muitas vezes indecifrável da felicidade: o pai, a mãe, os irmãos de alma e sangue, os novos amigos que aparecem em nosso caminho, os velhos que te espiam e protegem de longe e de perto, os amores bem resolvidos que viram doces e eternos amores, aprender novas coisas, o encontro com as tuas missões aqui na terra, o silêncio conquistado com a serenidade, o sorriso diário da certeza do caminho certo, fazer o bem sem olhar a quem, a crença sempre a crença em um mundo melhor, mais justo e solidário e a felicidade em acreditar nessa suposta ingenuidade que me faz perseguir o sonhoe que um dia todas as pessoas serão fraternas, bondosas e humanas de fato...Isso me faz feliz!

Autoria:anacarolinacaldas

15 de abr. de 2007

E ela se inventou...


Mais uma tentativa
Mas dessa vez foi diferente
Me portei no meu pedestal
Como o ser mais digno

Dentro de mim, da minha alma
Da essência verdadeira que me explica
Me portei no meu pedestal
Como o ser... mais risível

Não quis ter raiva, só amor incondicional
Não quis fazer tudo errado, fiz tudo certinho
Não quis não gostar de mim, e tive orgulho do que fiz
Não quis dar o braço a torcer, fui até o fim...

Mas eis que chega a Noite.
Perversa escureceu o que era a minha fantasia
Eu me portei no meu pedestal
Como o ser mais inventado ...

O amor incondicional se transformou em raiva
O certo foi todo errado
Meu orgulho me fez não gostar de mim
E o fim porque eu não dei o braço a torcer, já chegou

Faz tempo.

E perdida nas fantasias do meu dia
Eu nem percebi.


Autoria: anacarolinacaldas

5 de abr. de 2007


Todo sábado tinha Chico lá em casa!


Fui com meus pais no show do Chico, nesta quarta feira, no Teatro Guaira. Essa foi a combinação perfeita. Meus pais e o Chico. Primeiro os meus pais - são as pessoas mais iluminadas e intensas que eu conheço. Os dois tem os olhos sempre brilhando cheios de amor e compaixão. Os dois andam juntos ainda se aventurando, aprendendo e amando a vida. E o Chico? Foi com eles que aprendi a me encantar com o Chico Buarque.

Foi inevitável a choradeira. Passou um filme todinho da minha infância. Eu lembrei dos sábados na minha casa. Janelas abertas, cheirinho de café na cozinha e lá na sala bem alto eles já tinham colocado o Chico pra tocar. Sim, era desse jeito que a gente começava o sábado. Eu, minhas duas irmãs e meu irmão.

Lembrei também de um dia frio e minha mãe, creio desesperada com tanta criança em casa. Mas ela, nossa professora, sempre dava um jeito de inventar alguma brincadeira. E naquele dia colocou o disco Saltimbancos pra tocar e depois propôs: ”Vamos brincar de teatro!? Vamos fazer Saltimbancos?”. Ensaiamos, decoramos e depois noite adentro repetimos não sei quantas vezes a peça.

Depois da  infância nós começamos a entender algumas conversas dos meus pais e também entendemos alguns significados das músicas do Chico. Ditadura, exílio, entre outros. Participei do Movimento Estudantil e as músicas da infância estavam ali me fazendo entrar no encantamento do sonho revolucionário de mudar o mundo. Ah.. como cantei o "Apesar de Você" quando estava “contra atacando” os inimigos da democracia, do socialismo...Diga-se de passagem, minha música preferida.

Quantas vezes nossa mãe nos viu – nós meninas de casa – românticas assumidas, chorando pelos amores perdidos ou pelos amores vividos embaladas pela “Todo sentimento” ou “Futuros Amantes”. E como é sempre muito engraçado ouvir o meu pai dizer “Sou o cara mais corno manso que existe”, quando a minha mãe suspira ao ver o Chico...

Ah! Como foi bonito no show, eu de vez em quando de rabo de olho, espiar a minha história ao lado sentada comigo e ali na frente... no palco. Eu chorei tanto porque tudo aquilo tem o cheiro da minha casa, da gente toda reunida, do barulho dos meus irmãos, das músicas, do meu pai sentadinho na frente da vitrola (isso mesmo: vitrola!) escutando e cantando, da minha mãe de um lado pro outro arrumando a casa e cuidando de todo mundo. Enquanto o Chico andava por lá embalando os nossos sábados, os nossos laços, a nossa vida...

Exagero? Não... não é não. Só saudades.



autoria: anacarolinacaldas

3 de abr. de 2007

POR TODA UMA VIDA...

Eu vi nos olhos deles
A espera
A resignação
E a consciência

Que não há nada mais para se perder
Que a vida se finda a cada final do dia

A alegria de estar junto
Reviver
Os anos
Bem vividos

Em silêncio, cruzam os olhares
Na velhice e no amor que os une

Já pedi, já rezei, já implorei
A todos
Os santos
Que eles possam ficar

Para ainda embalar os meus sonhos
Eternamente em minha vida

Por que
É deles
A minha
história vivida

E o meu maior sofrer é não saber
Escrever o ponto final de todas as nossas histórias


autoria:anacarolinacaldas
Dedicada para as duas pessoas que eu mais amo nesse mundo...

“De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei deste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...”

João Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas



Enviado por Glauber Piva ... que de vez em quando "especula" idéias comigo

25 de mar. de 2007

Um Tempo Que Passou

Vou
Uma vez mais
Correr atrás
De todo o meu tempo perdido
Quem sabe, está guardado
Num relógio escondido por quem
Nem avalia o tempo que tem

Ou
Alguém o achou
Examinou
Julgou um tempo sem sentido
Quem sabe, foi usado
E está arrependido o ladrão
Que andou vivendo com o meu quinhão
Ou dorme num arquivo
Um pedaço de vida, vida
A vida que eu não gozei
Eu não respirei
Eu não existia
Mas eu estava vivo
Vivo, vivo
O tempo escorreu
O tempo era meu
E apenas queria
Haver de volta
Cada minuto que passou sem mim

Sim
Encontro enfim
Iguais a mim
Outras pessoas aturdidas
Descubro que são muitas
As horas dessas vidas que estão
Talvez postas em leilão

São
Mais de um milhão
Uma legião
Um carrilhão de horas vivas
Quem sabe, dobram juntas
As dores coletivas, quiçá
No canto mais pungente que há

Ou dançam numa torre
As nossas sobrevidas
Vidas, vidas
A se encantar
A se combinar
Em vidas futuras
E vão tomando porres
Porres, porres
Morrem de rir
Mas morrem de rir
Naquelas alturas
Pois sabem que não volta jamais
Um tempo que passou

Chico Buarque
Composição: Indisponível



...essa música me faz lembrar de todas as esperanças que tive desde que me conheço por gente fazendo parte das lutas da vida. Me faz lembrar que eu tinha mais forte meus ideais, minhas lutas e desejo por um mundo em transformação. Lembro do tempo sim que eu aprendi lá em casa e com os meus amigos a torcer que muitos milhões de votos fossem depositados à opção "mais revolucionária." Tempo em que eu chorava e me emocionava mais quando sentia que alguma coisa podia de verdade mudar... Tempo que eu me emocionava mais com as músicas do CHICO....Tempo que não volta mais. O que me resta é ter esperanças que aqui dentro de mim surja um novo tempo.
anacarolinacaldas



Perdi

...a batalha entre eu e todos os meus temores, inseguranças e surtos que me assombram e insistem em invadir os meus dias e desconcertar os meus passos.

...as esperanças de poder voltar atrás e fazer tudo diferente, sem errar, com a dignidade que sempre imaginei pra mim.

...pro meu destempero e a maldita intensidade a tudo e a todos a quem devoto amor, afeto, carinho e sem perceber me atropelei e me perdi....

De você.


autoria: Ana Carolina Caldas

4 de nov. de 2006

POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.



Clarice Lispector
in "Para não esquecer" - 5ª ed. - Siciliano - São Paulo, 1992